Sobre memórias de infância e camarão
Quando eu era criança, na escola eu tive bem poucos amigos. Mais especificamente, um por ano. Toda vez que começava uma nova série (na época, a gente falava desse jeito: 1ª série, 2ª série, 3ª série... e assim por diante), enfim, toda vez que começava uma nova série, eu "escolhia" um colega de classe pra ser amigo. Daí em diante, nós passávamos o ano inteiro fazendo as coisas juntos, os trabalhos, lição de casa, as tenebrosas apresentações na frente da sala toda.
Esses dias eu estava relembrando desse pessoal. Coisa doida que é a vida, né? Lá nos anos 90 e início dos anos 2000 a gente tinha muito pouca possibilidade de manter contatos. Conforme a escola acabava, aquele grande amigo simplesmente *puff* sumia. Muitas vezes, a pessoa morava do outro lado do bairro, ou se mudava pra longe depois de um tempo. Enfim, a convivência acabava do absoluto nada, aquela sinergia que existia entre duas pessoas evaporava literalmente da noite para o dia.
É engraçado pensar que hoje esse tipo de coisa não aconteceria (ao menos não da mesma forma). Afinal, hoje a grande maioria das pessoas estão por aí nas interwebs da vida. É mais fácil, você segue o perfil da pessoa na rede social XPTO e pronto, quando quiser será possível mandar uma mensagem. E pensando nisso, fico imaginando como seria reencontrar certas pessoas do passado.
Tem um maluco em especial que eu acho que seria legal rever. Ele foi um dos colegas de sala que eu "escolhi" como melhor amigo. Nossa amizade durou bem uns quatro ou cinco anos, basicamente a escola fundamental inteira. Lembro que íamos na casa um do outro para jogar videogame, brincar com bonecos do Comandos em Ação (os hominho), andar de bicicleta, bater tazo. Estávamos sempre juntos na escola e no tempo livre, era uma amizade legal. Ele era gago, fazia fono, e eu era o tímido quietão.
Inclusive, houve uma vez que eu fiquei brincando na casa desse mano até mais tarde e acabei ficando para a janta. Naquela fatídica noite, eu lavei as mãos, sentei à mesa junto com meu amigo e os pais dele. Aquela foi a primeira vez que presenciei a cozinha deles de noite, iluminada pela lâmpada branca do teto. Era diferente, eu lembro que estava um pouco constrangido, inclusive pela presença do pai do meu amigo.
E, enfim, a mãe pôs sobre a mesa, bem no meio, uma cumbuca ENORME de camarão. Aos 10 anos eu nunca tinha comido camarão na vida e fiquei desesperado, achando que os bichos estavam vivos. Era camarão pra um batalhão de gente, todos com cabeça. Eu olhei pra eles e eles me olharam de volta: uma centena de minúsculos olhinhos pretos observando até as profundezas mais ocultas da minha alma. Juro, aquela cena traumatizou tanto o Jeffersinho de 10 anos, que até hoje eu não gosto de comer camarão. Até como, mas não sou fã não.
Acho engraçado como essa lembrança me marcou de forma tão negativa na infância, mas hoje em dia lembro do causo com muito carinho. Virou uma dessas histórias pra se contar em momentos sociais, familiares ou em rodas de amigos. E lembrar desse tipo de memória dá uma baita nostalgia boa. Será que algum dia ainda vou reencontrar esse meu amigo de infância?
A gente pode procurar ele no Insta, Jeff Jeff =D
ResponderExcluirOi, Jeff. Eu também era do tipo "um amigo por ano". Mesmo sem mudar de escola, a cada dois ou três anos precisava eleger alguém para o posto de melhor amiga porque tomava um perdido das amizades anteriores. Com o tempo acabei me acostumando. Sobre camarões, nunca tive problemas com eles.
ResponderExcluirTenha uma boa semana!
Até breve;
Helaina (Escritora||Blogueira)
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